sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Vila dos Heréges.


MUITO LONGE DALI:

            Nas proximidades de um pequeno vilarejo da região de Frankfurt, dentro do território do Sacro Império Romano Germânico um pequeno grupo de soldados marchava sob uma tempestade de neve ao cair da noite, a visão era muito difícil, a floresta os cercava pelos dois lados, a estrada cada vez mais dificultava sua locomoção, porém, as ordens eram claras. A frente, uma figura parada a beira da estrada os aguardava, vestido em pesadas peles e usando um grande crucifixo dourado estava o arcebispo Péter Scherer, o famoso caçador de hereges do Império.
- Capitão Markus, você demorou.
- Lamento Senhor Bispo, porém essa tempestade não está facilitando a comoção, e estas estradas de terra logo começam a ficar atoladiças.
- Desculpas são indiferentes. – Seu tom esnobe era comum a todos os bispos. – Você sabe que os bruxos poderiam já ter fugido.
- Com essa neve toda, não iriam longe. – observando a neve sobre sua armadura de pele.
- Onde estão os soldados em armaduras de verdade, não foi isso o que pedi.
- O Meu Lorde não achou necessário enviar tropas pesadas para perseguir alguns hereges.
- Insolente. – Péter puxa então de sua túnica um rolo de papel, com uma escrita em latim feita a mão. – Aqui está, uma carta de um dos nossos padres atestando que o demônio tomou conta do povo desta vila, estão todos agindo de forma estranha, e me parece que existem afirmações de necromancia, bruxaria, idolatria ao demônio e canibalismo.
O rosto do capitão deixava escapar sua sensação de desconforto com tudo aquilo, aguardando o bispo terminar a acusação, ele volta-se para o mesmo:
- E a quem devemos procurar lá Senhor Bispo, quem iremos prender?
- Creio que não tenhas ouvido o que falei Capitão, essa vila não tem mais salvação.
- E o que o Senhor pretende que façamos o quê?
- Estes homens abandonaram a Igreja e cuspiram na imagem de Cristo, não há nada além de conhecerem a Ira de Deus.
- E creio que nossas espadas sejam o intermédio desta Ira? – Dentro de si o capitão recusava-se a idéia de matar uma vila inteira por causa das ordens de um Bispo. – Não há outro meio?
- Capitão, se você é incapaz de seguir as ordens de deus, vá-se daqui que irei falar com o teu Senhor e pedirei alguém capaz de seguir ordens.
- Perdão Bispo, farei como o senhor disser.
- Melhor assim, agora, o vilarejo fica a alguns quilômetros daqui, deverás chegar durante a noite. O que lhe dará a vantagem da surpresa. – O Bispo caminhava para o seu cavalo, montando-o. – Seja impiedoso com o Demônio que lá habita tal qual ele foi com as almas daquelas pessoas.
- Não nos acompanhará Bispo?
- Tenho mais o que fazer, voltarei para Frankfurt, aguardarei notícias suas. – Pondo o cavalo a caminhar na direção oposta a dos soldados. – Deus abençoa sua cruzada Capitão.
Quando uma distância já separava os dois, o Capitão Markus observando-o partir exclama:
- Velha raposa infernal, como podem deixar estes tipos tornarem-se bispos?
- Poder e dinheiro Capitão, muitos nascem em berço bom. – responde um de seus soldados.


B.d.K. 13 - A Missão 2.


- Desde seu último contato, ele informou ter tomado lugar na cidade como um mercador de tecidos. Deves chegar a estes e dizer-lhes que trazes panos e tecidos que nem mesmo mongóis dinamarqueses ou lituânios poderiam tecer, mas apenas um ser divino poderia lhes ter.
- Apenas isto?
- Não, ele responderá pedindo do que é feito este tecido. – Apontando para Shverno – Você deverá responder a ele são tecidos com os fios do destino pela tecelã suprema onde os fios do futuro entrelaçam-se com as cordas do passado criando este emaranhado que lhe possibilita entender, aquele que este pano deter, as nuances deste mundo.
- É uma grande frase para uma palavra código.
- Ou tu serás identificado pelo mesmo ou outros pensarão que és um comerciante extravagante e nada mais.
- Talvez prendam-me por loucura.
- Tudo é possível. – O Grão Duque puxa do seu pescoço um pingente. – Tome, leve como garantia este pingente, cada um dos nossos agente possui um destes.
- Um crucifixo, e um tanto grande para o padrão dos cristãos? – Olhava Shverno para aquele crucifixo do tamanho da palma de uma mão.
- Sim, dentro dele há uma pequena imagem de Dievas e um recado confirmando que aquele que porta esta estátua é autorizado por mim. – virando-se. – Tome cuidado para que ninguém descubra-a, isso poderia arriscara vida de muitos dos nossos e você seria morto certamente.
- Sim Meu Senhor, e o que fará o senhor? – Colocando o pingente.
- Devo voltar para capital, reorganizar nossas forças e avaliar como estão as fronteiras, creio que os dinamarqueses não tardarão em atacar-nos e tentarem tomar nossas terras ao norte, expandindo seu império ao sul. – Virando-se e caminhando. – Espero que cumpras esta missão e quero ouvir notícias suas em breve.
- Sim Meu senhor. – Shverno também já colocava-se em seu caminho quando Vaisvilkas volta a chama-lo.
- Shverno!
- Sim Meu Senhor.
- Você havia comentado que algumas daquelas pessoas na câmara de tortura não era lituânios. Eram eles moradores desta cidade?
- Não Senhor.
- De onde eram então?
- Oeste, chegaram aqui algumas semanas antes de erguermos o cerco a cidade.
- E como sabes disso?
- Os padres mantinham um registro de quem entrava e saia daquele local. Estas pessoas, me parece, chegaram com algum tipo de problema, pois não se estabeleceram na cidade. Foram diretamente para a prisão. Algo neles assustava a guardas e padres.
- Os textos não são claros, eles são torturados e obrigados a confessar seus pecados. Alguns deles morrem, porém, a partir de certo ponto os escritos se referem a eles como mortos errantes, demônios devoradores, e outros termos.
- Então, ele vieram de Danzig?
- Possivelmente foi um dos locais.
- Outro motivo para preocupar-me com o que acontece para estas regiões. – Vaisvilkas vira-se e começa novamente a andar. – Você tem sua missão.
- Sim Meu Senhor, haverei de cumpri-la.
Shverno vai em direção aos estábulos, precisaria preparar-se para a longa viagem, seriam necessários vários tipos de arranjos para que toda aquela história funciona-se como era esperado. Mas ele tinha uma cidade a sua disposição.

B.d.K. 12 - A missão.


Lá em cima, longe, já caminhavam Shverno e Vaisvilkas, o sacerdote parecia particularmente irritado.
- Meu Senhor, me permita a ousadia, mas fostes muito rápido em decretar a morte daqueles moribundos, sequer pudemos entender o por que estavam lá. – gesticula o sacerdote.
- Não há o que entender, eram torturados por sua fé diferente da destes cristãos – apontando para um grupo genérico de cristãos que jazia sobre guarda. – O que você queria daquelas pobres almas?
- O senhor ignorou, porém, nem todos ali eram sangue do nosso povo, uns demonstravam ser originados das terras a Oeste daqui.
- E por que achas isto?
- As roupas deles, as formas de suas faces, e alguns possuíam o símbolo do deus morto deles. Algo naqueles homens me dizia que não estavam presos por discordâncias com a fé vigente, mas algo mais.
- Pelo que me parece, tivestes bastante tempo para chafurdar naquele local – O rosto do Grão Duque repentinamente é tomado de um ar preocupado, parando sua caminhada, vira-se para o sacerdote. – Você está certo e tenho de lhe confessar, esta cidade cheira a morte, algo nestas estradas, na forma como as pessoas falam, como todos se movem, tudo é muito estranho. Um mal emana destas ruas, os vassalos de Giltiné andam livres nestas ruas. Creio que você possa sentir isso.
- Sim Meu Senhor. Porém temo que a fonte deste mal não está aqui, mas longe, nas terras dos cristãos. Creio que nossos deuses cansaram de ser ofendidos por estes invasores e delegaram a poderosa Ceifadora das Almas sua vingança.
- Pois bem, então meu caro Shverno, delegar-te-ei uma missão.
- Sim.
- Quero que vá primeiramente até a Danzig e veja o que acontece com os reinos cristãos. – Novamente o Grão Duque era tomado pelo seu costumeiro ar de comando. – Lá encontrarás um agente meu, um Assassino de nome Zygimantas. Ele está estabelecido em Danzig dentro de um grupo maior estacionado lá, ele atende por Swietopelk, Swieto se preferir.
- Um assassino Meu Senhor? – O sacerdote não escondia sua surpresa com a sagacidade do homem a sua frente.
- Sim. As vezes, meu jovem, é mais fácil encerrar uma guerra eliminando aqueles que pretendem inicia-la. Zygimantas é apenas um de dezes de agentes que tenho espalhado pelos reinos cristãos que cercam nosso país. – movendo-se para frente apoiando seu corpo contra a parede de uma residência, ponderava suas palavras. – Este sistema tem nos mantido a par do que acontecia e quem vinha contra nós durante anos, porém, já fazem meses que alguns dos agentes deixaram de enviar relatórios e isso quer dizer duas coisas.
- Ou foram descobertos e capturados ou mortos ou converteram-se desertaram para o lado dos cristãos.
- Correto, e ambas as situações apresentam riscos. Porém, não creio que este seja o caso com Zygimantas, ele é um profissional muito bom. Já está a anos sem ter sequer corrido risco de ser descoberto.
- E o Senhor quer que eu investigue o silêncio dos agentes, isso não seria mais pertinente a um espião?
- Shverno, se Giltiné está agindo nestas terras, ninguém melhor para descobrir o que acontece do que você. Confio-lhe esta missão, sirva-se do que for necessário para essa viagem e tome um cavalo até Danzig.
- E como farei para achar este Zygimantas?

B.d.K. 11 - A Catedral 4.


- Que maldição é esta, nós matamos você. – O corpo daquele homem continua avançando sobre ele, ali perto, dos soldados, outro levanta-se.
- Mas o que está acontecendo aqui? – Um dos soldados já desesperado, tenta desembainhar sua espada, uma dor lancinante toma seu braço, ao olhar, vê um dos homens mordendo o seu braço, com todas as forças, ele o empurra, para seu desespero, o mesmo sai com um grande pedaço de carne do seu braço, expondo-o até o osso.
Alguns dos soldados, desmaiados pela queda, sequer tiveram chance de defender-se contra aqueles monstros que os atacavam, indefesos tinham sua carne dilacerada pela mandíbula feroz. O último dos soldados a cair daquela escada, por ter tido um tombo menor, conseguiu recuperar-se rapidamente, balançando a cabeça, livrando-se do choque, pode ver seus amigos sendo mortos daquela forma grotesca. Aterrorizado, desembainha sua espada para defender-se de um dos atacantes que vinha em sua direção.
            Aquela criatura avançava, emitindo urros grotescos, como possuída por um ódio extremo, o soldado ataca, um golpe corta fundo na carne do inimigo, que urra, recua, mas para o espanto deste, não cai, volta a avançar em seguida, novo golpe, desferido contra a lateral do corpo, um corte acima do cotovelo faz com que o braço seja completamente cortado do corpo, mas longe de sentir dor, o algoz avança agora mais rápido com o braço restante estendido na direção do pobre homem, seu outro braço pinga um sangue grosso, coagulado. Quase encostado na parede, não há para onde fugir, a escada está bloqueada por outros daqueles seres e a sala de torturas apenas daria alguns minutos a mais pra ele. Sem opções, no alto do desespero, ele ataca, correndo com a espada para cima do monstro, ele desfere um golpe, atravessando seu corpo, na altura do coração atravessando-o completamente, por um segundo, ele tem a impressão de ter vencido, o homem está inerte com sua espada em seu corpo, seria apenas fazer o mesmo com os outros e poderia fugir, e comentar o que aconteceu, porém, em um súbito movimento, sente no seu pescoço, uma extrema dor e um peso sobre seu corpo, forçando suas pernas para trás. Na sua frente, aquele que estava morto na sua frente,  agora, ataca-o novamente, avançando sobre ele independente da espada, cravando-a mais fundo, ao ponto da mão do soldado cravar-se no corpo também.
No chão, debatendo-se, uma dor lancinante percorre seu corpo, seu rosto jorra sangue e o cheiro pútrido do homem em cima de si enche suas narinas. Dor e a cena horrenda daqueles dentes podres são as cenas finais da vida daquele homem que se esvai entre urros de dor, seu assassino serve-se de sua carne, arrancando nacos dela e engolindo-os em seguida.
A morte dos soldados, mesmo entre gritos de desespero, dor e agonia, não foi ouvida na parte superior da catedral, dada a longa escadaria com paredes de pedra absorvendo o som, e a pesada porta que separava estes dois locais, e mesmo que esse não fosse o caso, não haveria ninguém lá em cima para ouvi-los.
Uma morte repentina e desconhecida havia tomado suas vidas, porém, seus corpos não ficariam muito tempo ali, uma forma de vida diferente passaria habitá-los, trazendo-os de volta da mansão dos mortos.
            Na outra sala, o sacerdote, sem poder ver muito, mas ouvindo, e percebendo o rio de sangue correndo entre os vãos das pedras da sala, reza alto, pedindo proteção ao seu deus, que parece ignorá-lo, da outra sala, alguns dos monstros entram, fixamente olhando aquele homem preso a parede, indefeso.
O padre pede perdão pelas coisas que fez com estas pessoas, clamando por misericórdia, pelo amor maior, sem saber que a humanidade deles já havia deixado aquele corpo a muito tempo, de uma forma diferente que a humanidade dele também o deixara, no momento que aceitará torturar pessoas inocentes com base em sua fé, suas orações aumentavam conforme sua morte iminente aproximava-se.
            Aquela câmara de tortura havia exigido as vidas de diversas pessoas e agora não fora diferente, mas longe de uma tumba para aqueles corpos, o local havia transformando-se em uma armadilha para todos aqueles incautos que certamente viesse em busca de seus companheiros, caminhando sem saber para uma sentença de morte desconhecida deles próprios.

B.d.K. 10 - A Catedral 3.


            Enfurecido o Grão-Duque parte para cima do sacerdote cristão, desferindo-lhe uma bofetada no rosto, arrancado sangue de sua face.
- Como pode você fazer isso com um homem! – O ódio estava estampado na face dele. Todos os soldados prostraram-se um passo atrás do grão-duque. Ninguém ousaria defender um cristão da ira dele. – Como podes te julgar uma pessoa se compactuas com isso?
- Estes homens estão possuídos pela Diabo, o próprio Inimigo tomou conta de seus corpos. – Apontava o sacerdote para alguns homens presos pelos braços e pernas a parede. – Suas almas já deixaram seus corpos.
- Você me anoja, rato. – Mais um golpe contra o rosto do sacerdote. – Este lugar não merece existir.
- E estas pessoas meu senhor?
- Encerrem a miséria de todas elas, que seus corpos sejam levados para fora e queimados em uma pira funerária, cristãos ou lituânios, que Austaras escolha aqueles que irão adentrar o paraíso.
- E este aqui Senhor. – Apontando para o sacerdote no chão, que os observava atônito.
- Que ele seja amarrado as paredes deste inferno, que este lugar seja queimado e não reste lembrança da maldade perpetrada aqui.
- Não! Vocês não entendem, estes não são mais homens, são demônios, só pensam em matar. Eles ... – Sua fala é interrompida por um golpe de um dos soldados.
- Shverno! – Vira-se o Grão-Duque para ele. – Acompanhe-me, tenho uma missão para você antes de que eu deixe esta cidade. – Acompanhe-me.
- Sim Meu Senhor.
- Quanto a vocês, façam o que eu disse.
- Sim Senhor. – responde todos os guardas ali presentes.
            Um a um, os homens presos as paredes tem seus corações perfurados por uma espada. O sacerdote debate-se, dizendo que uma espada não pode matar o demônio, que aqueles homens eram imortais, para ser alvo de risadas e espancamentos dos soldados, sendo preso as paredes.
            Cada um deles junta um corpo para leva-lo até a superfície, começando a andar.
Nenhum deles percebe o medo no rosto do sacerdote que olhava fixamente para os corpos. Os soldados, carregam os corpos dos homens da parede com os braços destes arqueados sobre seus ombros, para facilitar a movimentação daquele peso-morto.
O pavor do sacerdote cristão agora é tão grande que sua boca aberta, berra em desespero, porém, sem nenhum som ser emitido. O último dos soldados, caminha em direção a escada, sendo então, tomado por uma dor pavorosa em seu corpo, sem entender direito o que acontece, ele cai, em uma possa, do que, ao tocar, percebe ser sangue, o susto inicial passado, ele encosta a mão no seu pescoço, sentindo uma grande ferida pulsando seu sangue para fora do corpo, mas o que haveria acontecido, pensa ele rapidamente.
Ao tentar colocar-se de pé, uma visão estarrecedora toma-o, um dos homens que acabara de ser morto pela espada daqueles soldados, atacava-o, esta é também sua última visão antes de ser morto por aquele homem.
            Os outros soldados que já na escada dão por falta do seu colega, virando-se não o vem, repentinamente, todos sentem um impacto brusco, fazendo-os tombar pela escada, caindo um por cima do outro.
- Mas o que está acontecendo?! – Um deles pergunta.
- O que é aquilo? – Aponta outro, para um dos corpos, que levanta-se, uma grande torção em seu braço em um ângulo não natural mostra que este está quebrado, porém, o sujeito não parece demonstrar dor.

B.d.K. 9 - A Catedral 2.


- E imagino que isso lhe deixe muito satisfeito Shverno. – Responde o Duque, com uma risada. – O que você queria comigo, para tanto alarde?
- Claro, Meu Senhor, acompanhe-me, que explico-lhe no caminho. – Apontando para a porta atrás de si. – Porém, temo que não será possível tantos guardas lá em baixo, alguns já estão lá.
- Lá em baixo?! Tudo bem, apenas dois me acompanhem, o resto, fique aqui.
- Então, o que você achou? – Pergunta o Grão-Duque, já nos aposentos privados da Igreja.
- O Senhor bem sabe que os cristãos tem o costume de perseguir e torturar aqueles que julgam hereges ou pagãos, sejam culpados ou não.
- Sim.
- E em geral, este locais de tortura são os castelos dos senhores do local.
- Sim.
- Mas aqui é diferente, vasculhando o local, achei um entrada que leva até uma construção subterrânea.
- Não seria isso uma catacumba?
- De certa forma sim, Meu Senhor. – Confirmou o sacerdote, empurrando uma pedra na parede, uma passagem surge nos fundos da Igreja, dentro, uma escada em espiral indo para baixo. – Por aqui.

- E o que há lá em baixo?
- Eu diria que a morada de Slogutis.
- A Senhora da Dor, Miséria e Sofrimento?! Vejo que algo lhe impressionou aqui. – Surpreende-se Vaisvilkas, apenas em situações muito angustiantes alguém cita o nome da Dama da Miséria e Dor. Do fundo daquela escada espiral, um cheiro putrefato emanava. – Mas que maldito cheiro é esse?
- Morte Meu Senhor.
            No fundo, finalmente, uma parede separava a escada da grande sala de torturas da Catedral, paredes negras tomadas pelo limo, úmidas e iluminadas por grandes tochas davam ao local um tom cadavérico. Inúmeras gaiolas de aço pontuavam o local e ao fundo várias máquinas de tortura como o arranca-seios, berço de judas, corta-joelhos, dama de ferro. A cena era infernal, sangue pelas paredes, algumas máquinas, como o esvicerador ainda possuí restos humanos, corpos inertes jogados em um canto do local.

No esmagador de cabeças, um homem ainda sentava, inerte provavelmente, sua cabeça presa ao aparelho, sangue escorria pelo seu rosto.
- Mas o que é isso?! – Exclama o Grão-Duque. – Qual a finalidade disto?
- Purificar os pecados destes homens. – Responde uma voz ao fundo da sala. – Um padre, responsável pelas confições do presos. – São todos pecadores.
- Como podem vocês, cristãos, pregarem o amor e a humildade, construindo suntuosas catedrais, cobrando os chamados dízimos dos seus fiéis e torturando-os desta forma.
- Parece que Vossa Grandeza possui muito conhecimento da Santa Igreja.
- Conheça um inimigo, entenda-o antes de enfrenta-lo e possuirá a vitória.
- Sábias palavras, mas não há vitória contra o Poderoso Deus, pois sua mão é pesada e seu golpe é forte e você não tem forças contra ele.
- Senhor, veja isso. – Chama-o um dos soldados.
- O que há?
- Estes homens, são lituânios. – Apontando para uma das gaiolas, alguns corpos putrefatos com seus ventres rasgados.
- Quais os pecados destes homens?
- Adorar falsos deuses.

B.d.K. 8 - A Catedral.


Pouco a pouco, algumas das pessoas foram levantando-se, com os pensamento para onde ir, decidiam-se, pequenos grupos formavam, alguns, de espírito mais forte, tomavam a liderança e punham-se a andar, com sua famílias e amigos, ou grupos, em direção a muralha da cidade e seus novos destinos, que esperança de atravessar uma zona de guerra? Poucas, mas melhor do que perecer ali.
- Ali Senhor. – Apontou o arqueiro para a grande construção que se erguia muito acima do resto da cidade, de forma majestosa, como as catedrais católicas tinham o costume de ser, de mostrar opulência, poder, organização diante dos homens, impressionante de fato.

- Devemos dar os parabéns a estes cristãos. – Exclamou o Duque. – Temos que aprender com eles, pois sabem como usar a maçonaria de uma forma impressionante. Soldado, peça que os engenheiros da corte estudem essa cidade de cima a baixo, que tenhamos todos seus segredos prontos para engrandecer e glorificar a nossa terra e nossos deuses.
- Sim Meu Senhor. Que assim seja. – Curvou-se o soldado, retirando-se.
Na catedral, uma dezena de soldados guardavam sua entrada e imediações, todos tomando posição de respeito conforme o Duque se aproximava com sua guarda pessoal.
- O que acontece aqui? Onde está Shverno? Por que vocês estão aqui?
- Ele está dentro da Catedral Senhor. O Sacerdote pediu que viéssemos acompanhá-lo. Outros estão lá dentro
- Adiante então soldado.
Uma grande escadaria separava a Catedral, elevando-a ainda mais acima da cidade, representando o poder da Igreja acima dos assuntos mundanos do mundo, diferença entre teoria e prática era clara para todos os pagãos ali presente, pela qual as vidas haviam sido modificadas pelas incursões de uma Igreja sedenta de poder e dinheiro.
Quando soldado e o Grão-Duque chegavam a porta, alguns soldados vem em sentido contrário cambaleantes, um deles, agachando-se, vomita logo ao sair da construção, outros apoiam-se nas paredes.
- O que há com eles?
- Não sei meu senhor, apenas ouvi comentarem que após o sacerdote entrar em um local, um cheiro podre surgiu e impregnou o local, estes chegaram a pouco tempo, talvez pensando em pilhar algo.
- Mande alguém busca-los, e que esteja proibida todo o saque desta cidade que agora nos pertence, mande essa mensagem a todos, e que estes ali sejam colocados como guardas nas muralhas.
- Sim alteza. – Um soldado da guarda pessoal que acompanhava-os responde, virando-se para cumprir as ordens.
            O interior da catedral era de uma beleza enorme, grades vitrais coloridos enfeitavam as paredes, este tipo de “janela” não permitia a entrada de grandes quantidades de luz durante o dia, deixando sempre um aspecto mais sombrio no seu interior, algo que funcionava bem para com iletrados temerosos das punições divinas.
O teto era alto, sustentado por grandes vigas que irradiavam-se no alto, havia um elevado onde o coral se prostrava, no fundo, longe das cadeiras do fieis, um grande altar dourado, com imagem dos santos e de Jesus. Era inegável o efeito daquela construção sobre as pessoas. No fundo, atrás do altar havia entradas que levava aos aposentos dos sacerdotes e as salas administrativas da Igreja, numa destas entradas Shverno aguardava. Para lá caminharam o Grão-Duque e sua escolta.
- Bem vindo, Meu Senhor. – Recepciona-os o sacerdote pagão. – Os cristãos roer-se-iam de ódio ao ver um sacerdote pagão investigando seus segredos.