sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A.V.d.H. - Parte 4.

            O pânico não tardou a se instalar, e já não havia mais hierarquia ou comando, as ordens do Capitão para organizarem-se para sair dali não eram ouvidas, os soldados corriam, desesperados e mais daquelas coisas saiam das casas, das ruas, de todos os cantos, dos poucos iniciais, uma pequena multidão se formava. Na floresta, os soldados que esperavam para cercar os fugitivos ouviam os gritos, sem saber de quem eram, julgavam ser das pessoas que vieram para exterminar. Um deles, observando a estrada, vê algumas pessoas vindo entre a nevasca, caminhando na direção oposta da cidade. Cutucando um de seus colegas ele comenta:
            - Veja lá, alguns tentam fugir.
            - Mas se fogem, deveriam estar correndo e não andando.
            - E daí? Quem sabe algumas garotas estejam lá, podemos ter sorte ainda. – Outro comenta, enquanto seus colegas riem.
            - Vamos lá checar nossa sorte então.
            Saem todos da floresta, com suas espadas e tochas em mãos, caminhando em direção aquele grupo, na frente deles uma figura está mais adiantada, é a este que um dos soldados se dirige.

            - Vão à algum lugar? -Silêncio.
            - Eu pedi se vão a algum lugar. – Caminhando em direção a uma das pessoas.
            - Aquela ali parece ser mulher, e das bonitas. – Um dos soldados aponta com a espada. – Vamos lá.
            Ao aproximarem-se daquelas pessoas que andavam com cabeça meio baixa o soldado pede novamente.
            - Aonde pensam que vão? – Mas apenas silêncio.
            - Nossa! Aonde uma moça tão bonita vai a essa hora? – O soldado que aproximava-se da mulher, que nada responde. – Eu falei com você sua vadia suja.
Ao levantar a cabeça da mesma com a mão, ela agarra-o no braço e morde forte entre o espaço do seu polegar e dedo indicador. Com o pé, ele afasta a, empurrando na altura do estômago, ela cai logo a frente na neve. Já o soldado solta a espada para tentar estancar o sangramento, seu colega ao lado olhando o que acontece não vê o homem a sua frente quando este ataca-o, apenas sente um peso enorme sobre seu corpo e o sangue quente escorrendo lhe pelo rosto. Cai se debatendo, enquanto sua carne é arrancada do corpo.
Os outros soldados assustados parte para defender seu amigo, um deles corta o pescoço de outro dos atacantes, fazendo a cabeça rolar longe enquanto o corpo cai.
            Já os outros dois cravam suas espadas no fundo dos corpos dos algozes que longe de morrer, avançam mesmo com a espada ali, em seu corpo, isso pega os soldados desprevenidos, que não sabendo o que fazer, tentam cravar mais fundo e torcer a espada, mas nada além de urros saem das bocas fétidas das pessoas ali. Um a um, vão sucumbindo sobre as bocas e mãos daqueles seres que recusam-se a morrer sobre suas espadas, logo a neve fica tomada de sangue, enquanto a carne alimenta os mortos vivos ali. Na vila os gritos continuam.
            - Queimem a vila. Matem todos. – Comandava o Capitão Markus, com gestos de sua mão, em um destes movimentos, seu braço é abruptamente parado e de canto de olho, ele percebe que uma daquelas criaturas segura-o, com um rápido movimento de seu outro braço, crava a espada no alto da cabeça do seu atacante, mas não antes de ser mordido na parte superior da mão, o corpo da criatura repentinamente fica mole e deixa de exercer resistência sendo empurrado para o lado.
            - A cabeça, ataquem a cabeça. – Grita a seus soldados, mas estes ou lutam com aquela agora multidão de mortos vivos que os atacam, ou fogem, alguns não conseguem escapar, sendo comido vivos por grupos, muitos tentam fugir para as casas, mas aquelas criaturas parecem ter uma ótima visão e os seguem no passo lento da morte. A vila queima com tochas arremessadas sobre os telhados de palha, pelo chão, soldados debatem-se em vão contra as mãos que apertam seus corpos e arrancam sua carne.
            - Vamos sair daqui. – comanda o capitão a alguns soldados que ainda consegue ouvir e ver, estes com suas espadas, defendem-se dos atacantes desferindo golpes certeiros, amputando membros arrancando gritos profundos de um misto de dor e ódio irracionais, mas para sua surpresa, apenas alguns deles não voltam a levantar-se.
            - Senhor, estas coisas não morrem. – A voz de um deles cortava pelas rajadas de neve e o som da tempestade que intensificava-se.
            - Cortem as cabeças. – Sua mão doía muito apesar do pequeno ferimento. – Vamos voltar a Frankfurt, venham.
            O pequeno grupo de soldados começa a avançar enquanto seus amigos são comidos a sua frente, a neve e a noite tornam a visão impossível, cada soldado carrega uma tocha para que possa ver alguns metros a sua frente, mas isso é uma atração para as criaturas que inertes em algum ponto, passam a avançar sobre eles, em seus passos lentos, fáceis de escapar com uma corrida, mas o número elevado deles fechando-se como uma parede.
            - Corram se querem viver, por aqui. – Aponta o capitão, quase em vão dadas as circunstâncias.

A.V.d.H. - Parte 3.

- O que é?
            - Um corpo. – o soldado, virando-o, vomita instantaneamente ao ver os órgãos expostos daquele corpo, já cozidos do gelo que acumulava-se sobre e envolta a ele. – O que é isso meu Deus.
            - Todos, estejam preparados. – Imediatamente todos desembainham suas espadas. Enquanto outros terminam de acender as tochas.
            - Senhor, há marcas de sangue por toda a vila, outros corpos também, parece que alguém já fez nosso serviço.
            - Vasculhem as casas, vejam se alguém está vivo. – Os músculos do seu corpo já estavam tensos.
            De porta em porta, os soldados iam abrindo-as, verificando seus interiores, alguns voltavam e caiam de joelhos sobre a neve. Outros vomitavam. Quem estivesse perto podia sentir o pútrido cheiro de carne podre que advinha de algumas delas.
            - Corpos Capitão, as casas, as ruas, alguns pareciam tentar fugir.
            - Mas o que pode ter feito isso?
            - Pelas marcas, apenas um lobisomem.
            - Calado soldado, não diga tolices.
            - Veja senhor, faltam grandes pedaços de carne e há marcas de muita pressão em alguns pontos.
            - Não, isso é muito estranho. Vamos ver se...
            Ao longe um grito de desespero é ouvido, fazendo todos voltarem-se a ele para o terror de todos, o primeiro soldado, que havia visto o corpo, tentara move-lo para o centro da vila, quando fora atacado por este, sem nenhum aviso, aquela pessoa com parte de seus órgãos interiores expostos agarra-o dando-lhe uma mordida na sua mão arrancando seu polegar, agora os dois debatem-se numa luta corpo a corpo. A criatura babando, força seu peso contra o do soldado, que debilitado pela dor fraqueja e cai. Logo seu pescoço abre-se em uma grande ferida por onde verte sangue quente, aquele não-morto come sua carne para o pavor dos últimos suspiros de vida daquele homem.
            Seus amigos correm para ajuda-lo, porém, já é tarde, virando o seu atacante, um deles crava a espada na região do seu diafragma, jogando-o no chão onde cai inerte. Um dos soldados aproxima-se  ajoelhando-se ao lado do mesmo vasculhando o resto de suas roupas.
            - Mas o que foi isso Capitão?
            - Eu não sei, mas não ele não deveria estar vivo.
            - O senhor viu, como nós, Capitão, vamos embora.
            Novamente, um grito de dor é ouvido por todos que voltam suas cabeças para direita e para seu espanto, veêm aquela criatura que acabara de ser varada por uma espada atacando o pescoço do descuidado soldado que havia se abaixado perto dele. Mas desta vez, ninguém aproxima-se para ajudar, todos estão com aterrorizados, afastando-se enquanto seu amigo é dilacerado. Se tivessem olhado para trás neste instante, teriam visto que de dentro de uma das casas, outro de seus amigos tentava sair, mas era derrubado por outras destas criaturas, sequer com tempo de gritar por socorro.
            - Senhor, eles são mortos vivos, o Bispo tinha razão, há alguém praticando necromancia. – Um dos soldados já chorando de medo. – Como se mata algo que já morreu.
             - Acho que teremos de pedir para o Bispo, vamos embora daqui. – Ao virar-se, a cena aterradora das silhuetas dos mortos que haviam sido trazidos ao centro da cidade levantando-se toma-o. Outros correm, das casas saem mais daquelas criaturas, andando com dificuldade, porém vendo-os em meio aquela nevasca, o que não era o mesmo para a tropa ali, que enxergava apenas alguns metros a sua frente.

A.V.d.H. - Parte 2.

- Indiferente agora, não somos um destes, e temos uma missão a cumprir, se quisermos voltar a nossas casas. – Suspirando e colocando suas tropas a caminhar novamente. – Vamos homens.
- Aye! – Respondem todos em uníssono.
A pequena tropa põe-se a caminhar novamente, são cerca de 50 soldados, porém, mais que suficiente para eliminar uma vila com cerca de 200 pessoas. O pequeno vilarejo de Bingen havia conhecido um crescimento nos últimos anos com a derrubada de florestas e as confecções de flechas para o exército do Imperador. Agora, porém, conheceria sua aniquilação completa.
Próximos a vila, mas distantes o suficiente para serem visto, o que não precisava ser muito longe dado a tempestade de neve que aumentara, escondem ao lado da estrada, aguardando ordens.
- Muito estranho, a vila deveria ter suas tochas acesas ao cair da noite. – Comentava o capitão para um de seus soldados. – Porque estão acesas apenas algumas?
- Talvez saibam que estamos nos aproximando Capitão, o Demônio não é tolo.
- Já chega soldado. – Pensando em como agir, Markus volta-se para seus homens.
- Não poderemos deixar nenhum destes adoradores do Diabo escapar, nossas ordens são claras, homens, mulheres e crianças e velhos. – Essas duas palavras fazem-no parar, com um aperto no estômago. – Não devem ser poupados.
 Todos seus homens lhe olhavam fixamente.
- Para tal, iremos entrar na cidade pelas estradas em grupos, outros devem seguir diretamente para o estábulo e impedir que qualquer um pegue um cavalo. Vocês e vocês. – Apontando para grupos de 5 soldados. – Entrem pela floresta e contornem o vilarejo, vindo pela sua parte de trás, bloqueiem suas saídas. Entendido?
- Sim Senhor!
- A princípio, eles não irão saber o que acontecem, podem pensar que somos apenas de uma guarnição para proteger a cidade, isto nos dará vantagem.
- Não seria melhor pegá-los de surpresa Capitão?
- Você quer entrar no vilarejo gritando e brandindo sua espada, correndo atrás de pessoas por todos os lados?
            - Não Meu Capitão.
            - Então silêncio, com isso poderemos trazer todos os moradores para o mesmo local e depois terminarmos o serviço. – Olhando novamente em direção ao vilarejo. – Quando chegarmos lá tratem de acender as tochas. Vamos.
            Os soldados põe-se a caminhar, aqueles destacados para contornar a vila, adentram a floresta, provavelmente para pior caminhada de suas vidas, naquele frio cortante dentro de uma floresta densa e escura onde o único ponto de referência são as fracas tochas que queimam em Bingen. Ao chegar no centro do vilarejo, o Capitão põe-se a gritar, anunciando sua chegada e pedindo o comparecimento de todos ali, seus soldados seguem ascendendo as tochas, nisto, voltam correndo alguns soldados até ele.
            - Capitão, o estábulo está vazio.
            - O quê?! Não acredito que tenham descoberto nossa chegada.
            - Não senhor, não parece que foi isso, as paredes estão destruídas, é como se os cavalos tivessem fugido, pois as cancelas estão trancadas.
            - Capitão. – Chega correndo outro soldado. – Há marcas de sangue perto de uma das casas.
            - O que está acontecendo aqui? – Um mal pressentimento toma-o. – Entrem em todas as casas, verifiquem cada cômodo e todas as ruas.
            - Senhor, achei algo. – Outro soldado, mais longe.

A Vila dos Heréges.


MUITO LONGE DALI:

            Nas proximidades de um pequeno vilarejo da região de Frankfurt, dentro do território do Sacro Império Romano Germânico um pequeno grupo de soldados marchava sob uma tempestade de neve ao cair da noite, a visão era muito difícil, a floresta os cercava pelos dois lados, a estrada cada vez mais dificultava sua locomoção, porém, as ordens eram claras. A frente, uma figura parada a beira da estrada os aguardava, vestido em pesadas peles e usando um grande crucifixo dourado estava o arcebispo Péter Scherer, o famoso caçador de hereges do Império.
- Capitão Markus, você demorou.
- Lamento Senhor Bispo, porém essa tempestade não está facilitando a comoção, e estas estradas de terra logo começam a ficar atoladiças.
- Desculpas são indiferentes. – Seu tom esnobe era comum a todos os bispos. – Você sabe que os bruxos poderiam já ter fugido.
- Com essa neve toda, não iriam longe. – observando a neve sobre sua armadura de pele.
- Onde estão os soldados em armaduras de verdade, não foi isso o que pedi.
- O Meu Lorde não achou necessário enviar tropas pesadas para perseguir alguns hereges.
- Insolente. – Péter puxa então de sua túnica um rolo de papel, com uma escrita em latim feita a mão. – Aqui está, uma carta de um dos nossos padres atestando que o demônio tomou conta do povo desta vila, estão todos agindo de forma estranha, e me parece que existem afirmações de necromancia, bruxaria, idolatria ao demônio e canibalismo.
O rosto do capitão deixava escapar sua sensação de desconforto com tudo aquilo, aguardando o bispo terminar a acusação, ele volta-se para o mesmo:
- E a quem devemos procurar lá Senhor Bispo, quem iremos prender?
- Creio que não tenhas ouvido o que falei Capitão, essa vila não tem mais salvação.
- E o que o Senhor pretende que façamos o quê?
- Estes homens abandonaram a Igreja e cuspiram na imagem de Cristo, não há nada além de conhecerem a Ira de Deus.
- E creio que nossas espadas sejam o intermédio desta Ira? – Dentro de si o capitão recusava-se a idéia de matar uma vila inteira por causa das ordens de um Bispo. – Não há outro meio?
- Capitão, se você é incapaz de seguir as ordens de deus, vá-se daqui que irei falar com o teu Senhor e pedirei alguém capaz de seguir ordens.
- Perdão Bispo, farei como o senhor disser.
- Melhor assim, agora, o vilarejo fica a alguns quilômetros daqui, deverás chegar durante a noite. O que lhe dará a vantagem da surpresa. – O Bispo caminhava para o seu cavalo, montando-o. – Seja impiedoso com o Demônio que lá habita tal qual ele foi com as almas daquelas pessoas.
- Não nos acompanhará Bispo?
- Tenho mais o que fazer, voltarei para Frankfurt, aguardarei notícias suas. – Pondo o cavalo a caminhar na direção oposta a dos soldados. – Deus abençoa sua cruzada Capitão.
Quando uma distância já separava os dois, o Capitão Markus observando-o partir exclama:
- Velha raposa infernal, como podem deixar estes tipos tornarem-se bispos?
- Poder e dinheiro Capitão, muitos nascem em berço bom. – responde um de seus soldados.


B.d.K. 13 - A Missão 2.


- Desde seu último contato, ele informou ter tomado lugar na cidade como um mercador de tecidos. Deves chegar a estes e dizer-lhes que trazes panos e tecidos que nem mesmo mongóis dinamarqueses ou lituânios poderiam tecer, mas apenas um ser divino poderia lhes ter.
- Apenas isto?
- Não, ele responderá pedindo do que é feito este tecido. – Apontando para Shverno – Você deverá responder a ele são tecidos com os fios do destino pela tecelã suprema onde os fios do futuro entrelaçam-se com as cordas do passado criando este emaranhado que lhe possibilita entender, aquele que este pano deter, as nuances deste mundo.
- É uma grande frase para uma palavra código.
- Ou tu serás identificado pelo mesmo ou outros pensarão que és um comerciante extravagante e nada mais.
- Talvez prendam-me por loucura.
- Tudo é possível. – O Grão Duque puxa do seu pescoço um pingente. – Tome, leve como garantia este pingente, cada um dos nossos agente possui um destes.
- Um crucifixo, e um tanto grande para o padrão dos cristãos? – Olhava Shverno para aquele crucifixo do tamanho da palma de uma mão.
- Sim, dentro dele há uma pequena imagem de Dievas e um recado confirmando que aquele que porta esta estátua é autorizado por mim. – virando-se. – Tome cuidado para que ninguém descubra-a, isso poderia arriscara vida de muitos dos nossos e você seria morto certamente.
- Sim Meu Senhor, e o que fará o senhor? – Colocando o pingente.
- Devo voltar para capital, reorganizar nossas forças e avaliar como estão as fronteiras, creio que os dinamarqueses não tardarão em atacar-nos e tentarem tomar nossas terras ao norte, expandindo seu império ao sul. – Virando-se e caminhando. – Espero que cumpras esta missão e quero ouvir notícias suas em breve.
- Sim Meu senhor. – Shverno também já colocava-se em seu caminho quando Vaisvilkas volta a chama-lo.
- Shverno!
- Sim Meu Senhor.
- Você havia comentado que algumas daquelas pessoas na câmara de tortura não era lituânios. Eram eles moradores desta cidade?
- Não Senhor.
- De onde eram então?
- Oeste, chegaram aqui algumas semanas antes de erguermos o cerco a cidade.
- E como sabes disso?
- Os padres mantinham um registro de quem entrava e saia daquele local. Estas pessoas, me parece, chegaram com algum tipo de problema, pois não se estabeleceram na cidade. Foram diretamente para a prisão. Algo neles assustava a guardas e padres.
- Os textos não são claros, eles são torturados e obrigados a confessar seus pecados. Alguns deles morrem, porém, a partir de certo ponto os escritos se referem a eles como mortos errantes, demônios devoradores, e outros termos.
- Então, ele vieram de Danzig?
- Possivelmente foi um dos locais.
- Outro motivo para preocupar-me com o que acontece para estas regiões. – Vaisvilkas vira-se e começa novamente a andar. – Você tem sua missão.
- Sim Meu Senhor, haverei de cumpri-la.
Shverno vai em direção aos estábulos, precisaria preparar-se para a longa viagem, seriam necessários vários tipos de arranjos para que toda aquela história funciona-se como era esperado. Mas ele tinha uma cidade a sua disposição.

B.d.K. 12 - A missão.


Lá em cima, longe, já caminhavam Shverno e Vaisvilkas, o sacerdote parecia particularmente irritado.
- Meu Senhor, me permita a ousadia, mas fostes muito rápido em decretar a morte daqueles moribundos, sequer pudemos entender o por que estavam lá. – gesticula o sacerdote.
- Não há o que entender, eram torturados por sua fé diferente da destes cristãos – apontando para um grupo genérico de cristãos que jazia sobre guarda. – O que você queria daquelas pobres almas?
- O senhor ignorou, porém, nem todos ali eram sangue do nosso povo, uns demonstravam ser originados das terras a Oeste daqui.
- E por que achas isto?
- As roupas deles, as formas de suas faces, e alguns possuíam o símbolo do deus morto deles. Algo naqueles homens me dizia que não estavam presos por discordâncias com a fé vigente, mas algo mais.
- Pelo que me parece, tivestes bastante tempo para chafurdar naquele local – O rosto do Grão Duque repentinamente é tomado de um ar preocupado, parando sua caminhada, vira-se para o sacerdote. – Você está certo e tenho de lhe confessar, esta cidade cheira a morte, algo nestas estradas, na forma como as pessoas falam, como todos se movem, tudo é muito estranho. Um mal emana destas ruas, os vassalos de Giltiné andam livres nestas ruas. Creio que você possa sentir isso.
- Sim Meu Senhor. Porém temo que a fonte deste mal não está aqui, mas longe, nas terras dos cristãos. Creio que nossos deuses cansaram de ser ofendidos por estes invasores e delegaram a poderosa Ceifadora das Almas sua vingança.
- Pois bem, então meu caro Shverno, delegar-te-ei uma missão.
- Sim.
- Quero que vá primeiramente até a Danzig e veja o que acontece com os reinos cristãos. – Novamente o Grão Duque era tomado pelo seu costumeiro ar de comando. – Lá encontrarás um agente meu, um Assassino de nome Zygimantas. Ele está estabelecido em Danzig dentro de um grupo maior estacionado lá, ele atende por Swietopelk, Swieto se preferir.
- Um assassino Meu Senhor? – O sacerdote não escondia sua surpresa com a sagacidade do homem a sua frente.
- Sim. As vezes, meu jovem, é mais fácil encerrar uma guerra eliminando aqueles que pretendem inicia-la. Zygimantas é apenas um de dezes de agentes que tenho espalhado pelos reinos cristãos que cercam nosso país. – movendo-se para frente apoiando seu corpo contra a parede de uma residência, ponderava suas palavras. – Este sistema tem nos mantido a par do que acontecia e quem vinha contra nós durante anos, porém, já fazem meses que alguns dos agentes deixaram de enviar relatórios e isso quer dizer duas coisas.
- Ou foram descobertos e capturados ou mortos ou converteram-se desertaram para o lado dos cristãos.
- Correto, e ambas as situações apresentam riscos. Porém, não creio que este seja o caso com Zygimantas, ele é um profissional muito bom. Já está a anos sem ter sequer corrido risco de ser descoberto.
- E o Senhor quer que eu investigue o silêncio dos agentes, isso não seria mais pertinente a um espião?
- Shverno, se Giltiné está agindo nestas terras, ninguém melhor para descobrir o que acontece do que você. Confio-lhe esta missão, sirva-se do que for necessário para essa viagem e tome um cavalo até Danzig.
- E como farei para achar este Zygimantas?

B.d.K. 11 - A Catedral 4.


- Que maldição é esta, nós matamos você. – O corpo daquele homem continua avançando sobre ele, ali perto, dos soldados, outro levanta-se.
- Mas o que está acontecendo aqui? – Um dos soldados já desesperado, tenta desembainhar sua espada, uma dor lancinante toma seu braço, ao olhar, vê um dos homens mordendo o seu braço, com todas as forças, ele o empurra, para seu desespero, o mesmo sai com um grande pedaço de carne do seu braço, expondo-o até o osso.
Alguns dos soldados, desmaiados pela queda, sequer tiveram chance de defender-se contra aqueles monstros que os atacavam, indefesos tinham sua carne dilacerada pela mandíbula feroz. O último dos soldados a cair daquela escada, por ter tido um tombo menor, conseguiu recuperar-se rapidamente, balançando a cabeça, livrando-se do choque, pode ver seus amigos sendo mortos daquela forma grotesca. Aterrorizado, desembainha sua espada para defender-se de um dos atacantes que vinha em sua direção.
            Aquela criatura avançava, emitindo urros grotescos, como possuída por um ódio extremo, o soldado ataca, um golpe corta fundo na carne do inimigo, que urra, recua, mas para o espanto deste, não cai, volta a avançar em seguida, novo golpe, desferido contra a lateral do corpo, um corte acima do cotovelo faz com que o braço seja completamente cortado do corpo, mas longe de sentir dor, o algoz avança agora mais rápido com o braço restante estendido na direção do pobre homem, seu outro braço pinga um sangue grosso, coagulado. Quase encostado na parede, não há para onde fugir, a escada está bloqueada por outros daqueles seres e a sala de torturas apenas daria alguns minutos a mais pra ele. Sem opções, no alto do desespero, ele ataca, correndo com a espada para cima do monstro, ele desfere um golpe, atravessando seu corpo, na altura do coração atravessando-o completamente, por um segundo, ele tem a impressão de ter vencido, o homem está inerte com sua espada em seu corpo, seria apenas fazer o mesmo com os outros e poderia fugir, e comentar o que aconteceu, porém, em um súbito movimento, sente no seu pescoço, uma extrema dor e um peso sobre seu corpo, forçando suas pernas para trás. Na sua frente, aquele que estava morto na sua frente,  agora, ataca-o novamente, avançando sobre ele independente da espada, cravando-a mais fundo, ao ponto da mão do soldado cravar-se no corpo também.
No chão, debatendo-se, uma dor lancinante percorre seu corpo, seu rosto jorra sangue e o cheiro pútrido do homem em cima de si enche suas narinas. Dor e a cena horrenda daqueles dentes podres são as cenas finais da vida daquele homem que se esvai entre urros de dor, seu assassino serve-se de sua carne, arrancando nacos dela e engolindo-os em seguida.
A morte dos soldados, mesmo entre gritos de desespero, dor e agonia, não foi ouvida na parte superior da catedral, dada a longa escadaria com paredes de pedra absorvendo o som, e a pesada porta que separava estes dois locais, e mesmo que esse não fosse o caso, não haveria ninguém lá em cima para ouvi-los.
Uma morte repentina e desconhecida havia tomado suas vidas, porém, seus corpos não ficariam muito tempo ali, uma forma de vida diferente passaria habitá-los, trazendo-os de volta da mansão dos mortos.
            Na outra sala, o sacerdote, sem poder ver muito, mas ouvindo, e percebendo o rio de sangue correndo entre os vãos das pedras da sala, reza alto, pedindo proteção ao seu deus, que parece ignorá-lo, da outra sala, alguns dos monstros entram, fixamente olhando aquele homem preso a parede, indefeso.
O padre pede perdão pelas coisas que fez com estas pessoas, clamando por misericórdia, pelo amor maior, sem saber que a humanidade deles já havia deixado aquele corpo a muito tempo, de uma forma diferente que a humanidade dele também o deixara, no momento que aceitará torturar pessoas inocentes com base em sua fé, suas orações aumentavam conforme sua morte iminente aproximava-se.
            Aquela câmara de tortura havia exigido as vidas de diversas pessoas e agora não fora diferente, mas longe de uma tumba para aqueles corpos, o local havia transformando-se em uma armadilha para todos aqueles incautos que certamente viesse em busca de seus companheiros, caminhando sem saber para uma sentença de morte desconhecida deles próprios.