sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

B.d.K. 9 - A Catedral 2.


- E imagino que isso lhe deixe muito satisfeito Shverno. – Responde o Duque, com uma risada. – O que você queria comigo, para tanto alarde?
- Claro, Meu Senhor, acompanhe-me, que explico-lhe no caminho. – Apontando para a porta atrás de si. – Porém, temo que não será possível tantos guardas lá em baixo, alguns já estão lá.
- Lá em baixo?! Tudo bem, apenas dois me acompanhem, o resto, fique aqui.
- Então, o que você achou? – Pergunta o Grão-Duque, já nos aposentos privados da Igreja.
- O Senhor bem sabe que os cristãos tem o costume de perseguir e torturar aqueles que julgam hereges ou pagãos, sejam culpados ou não.
- Sim.
- E em geral, este locais de tortura são os castelos dos senhores do local.
- Sim.
- Mas aqui é diferente, vasculhando o local, achei um entrada que leva até uma construção subterrânea.
- Não seria isso uma catacumba?
- De certa forma sim, Meu Senhor. – Confirmou o sacerdote, empurrando uma pedra na parede, uma passagem surge nos fundos da Igreja, dentro, uma escada em espiral indo para baixo. – Por aqui.

- E o que há lá em baixo?
- Eu diria que a morada de Slogutis.
- A Senhora da Dor, Miséria e Sofrimento?! Vejo que algo lhe impressionou aqui. – Surpreende-se Vaisvilkas, apenas em situações muito angustiantes alguém cita o nome da Dama da Miséria e Dor. Do fundo daquela escada espiral, um cheiro putrefato emanava. – Mas que maldito cheiro é esse?
- Morte Meu Senhor.
            No fundo, finalmente, uma parede separava a escada da grande sala de torturas da Catedral, paredes negras tomadas pelo limo, úmidas e iluminadas por grandes tochas davam ao local um tom cadavérico. Inúmeras gaiolas de aço pontuavam o local e ao fundo várias máquinas de tortura como o arranca-seios, berço de judas, corta-joelhos, dama de ferro. A cena era infernal, sangue pelas paredes, algumas máquinas, como o esvicerador ainda possuí restos humanos, corpos inertes jogados em um canto do local.

No esmagador de cabeças, um homem ainda sentava, inerte provavelmente, sua cabeça presa ao aparelho, sangue escorria pelo seu rosto.
- Mas o que é isso?! – Exclama o Grão-Duque. – Qual a finalidade disto?
- Purificar os pecados destes homens. – Responde uma voz ao fundo da sala. – Um padre, responsável pelas confições do presos. – São todos pecadores.
- Como podem vocês, cristãos, pregarem o amor e a humildade, construindo suntuosas catedrais, cobrando os chamados dízimos dos seus fiéis e torturando-os desta forma.
- Parece que Vossa Grandeza possui muito conhecimento da Santa Igreja.
- Conheça um inimigo, entenda-o antes de enfrenta-lo e possuirá a vitória.
- Sábias palavras, mas não há vitória contra o Poderoso Deus, pois sua mão é pesada e seu golpe é forte e você não tem forças contra ele.
- Senhor, veja isso. – Chama-o um dos soldados.
- O que há?
- Estes homens, são lituânios. – Apontando para uma das gaiolas, alguns corpos putrefatos com seus ventres rasgados.
- Quais os pecados destes homens?
- Adorar falsos deuses.

B.d.K. 8 - A Catedral.


Pouco a pouco, algumas das pessoas foram levantando-se, com os pensamento para onde ir, decidiam-se, pequenos grupos formavam, alguns, de espírito mais forte, tomavam a liderança e punham-se a andar, com sua famílias e amigos, ou grupos, em direção a muralha da cidade e seus novos destinos, que esperança de atravessar uma zona de guerra? Poucas, mas melhor do que perecer ali.
- Ali Senhor. – Apontou o arqueiro para a grande construção que se erguia muito acima do resto da cidade, de forma majestosa, como as catedrais católicas tinham o costume de ser, de mostrar opulência, poder, organização diante dos homens, impressionante de fato.

- Devemos dar os parabéns a estes cristãos. – Exclamou o Duque. – Temos que aprender com eles, pois sabem como usar a maçonaria de uma forma impressionante. Soldado, peça que os engenheiros da corte estudem essa cidade de cima a baixo, que tenhamos todos seus segredos prontos para engrandecer e glorificar a nossa terra e nossos deuses.
- Sim Meu Senhor. Que assim seja. – Curvou-se o soldado, retirando-se.
Na catedral, uma dezena de soldados guardavam sua entrada e imediações, todos tomando posição de respeito conforme o Duque se aproximava com sua guarda pessoal.
- O que acontece aqui? Onde está Shverno? Por que vocês estão aqui?
- Ele está dentro da Catedral Senhor. O Sacerdote pediu que viéssemos acompanhá-lo. Outros estão lá dentro
- Adiante então soldado.
Uma grande escadaria separava a Catedral, elevando-a ainda mais acima da cidade, representando o poder da Igreja acima dos assuntos mundanos do mundo, diferença entre teoria e prática era clara para todos os pagãos ali presente, pela qual as vidas haviam sido modificadas pelas incursões de uma Igreja sedenta de poder e dinheiro.
Quando soldado e o Grão-Duque chegavam a porta, alguns soldados vem em sentido contrário cambaleantes, um deles, agachando-se, vomita logo ao sair da construção, outros apoiam-se nas paredes.
- O que há com eles?
- Não sei meu senhor, apenas ouvi comentarem que após o sacerdote entrar em um local, um cheiro podre surgiu e impregnou o local, estes chegaram a pouco tempo, talvez pensando em pilhar algo.
- Mande alguém busca-los, e que esteja proibida todo o saque desta cidade que agora nos pertence, mande essa mensagem a todos, e que estes ali sejam colocados como guardas nas muralhas.
- Sim alteza. – Um soldado da guarda pessoal que acompanhava-os responde, virando-se para cumprir as ordens.
            O interior da catedral era de uma beleza enorme, grades vitrais coloridos enfeitavam as paredes, este tipo de “janela” não permitia a entrada de grandes quantidades de luz durante o dia, deixando sempre um aspecto mais sombrio no seu interior, algo que funcionava bem para com iletrados temerosos das punições divinas.
O teto era alto, sustentado por grandes vigas que irradiavam-se no alto, havia um elevado onde o coral se prostrava, no fundo, longe das cadeiras do fieis, um grande altar dourado, com imagem dos santos e de Jesus. Era inegável o efeito daquela construção sobre as pessoas. No fundo, atrás do altar havia entradas que levava aos aposentos dos sacerdotes e as salas administrativas da Igreja, numa destas entradas Shverno aguardava. Para lá caminharam o Grão-Duque e sua escolta.
- Bem vindo, Meu Senhor. – Recepciona-os o sacerdote pagão. – Os cristãos roer-se-iam de ódio ao ver um sacerdote pagão investigando seus segredos.

B.d.K. 7 - O julgamento 3.


Uma conversa começa entre elas em um tom preocupado, muitas mulheres deixavam lágrimas escorrer-lhes os olhos, levando a surpresa ao Grão-Duque, o qual esperava ver alívio e alegria nos seus rostos, pois, mesmo sendo um caminho perigoso, eram muitas pessoas e um grupo grande como aquele, acabaria por sobreviver a sua peregrinação. Mas longe disto, havia um desespero crescente nos prisioneiros.
- Por que choram, dou-lhes a chance de saírem com sua vida, chance que muitas famílias na Lituânia não tiveram, e vocês choram de tristeza e desespero, o que queriam?
- Meu Senhor, se me permite, mas pediríamos a clemência de não nos mandar embora, não para o Oeste, pois notícias ruins provém de lá e a morte parece-nos melhor. Pedimos-lhe que nos deixe ficar envolta desta cidade, não precisamos morar nos dentro das muralhas, mas não nos mande para lá.
- Tu! – apontando para aquele homem de aspecto fraco que  levanta-se para falar pela multidão. – Do que falas aldeão, o que é pior lá do que a morte aqui? Fala-me.
- Não sabemos, Meu Senhor, não sabemos, os guardas não comentam, mas a 2 meses que ninguém vem daquela direção. – Apontando para onde o Duque iria mandar-lhes. – Muitos soldados deixaram a cidade e voltaram para o Império.
- O que explica essa defesa pífia que nos foi oferecida. – pensa o Duque. – Sabem o que acontece que soldados sejam enviados de volta?
- Não Meu Senhor, mas talvez uma guerra tenha eclodido entre os reinos de lá? Ou quem sabe os Muçulmanos estejam avançando muito rápido ao norte.
- É improvável. – Analisa para si novamente. – Tenho mantido contato com os Mongóis ao Sul, e não me parece que tenham ganhado mais territórios ao Nortes mesmo na região da Hispânia. E uma guerra traria refugiados e não extinguiria com eles.
- Por isso Meu Senhor. – Continuava o humilde campesino. – Deixo-nos em suas terras, dei-nos sua clemência.
- Vossa Grandeza. – Aproxima-se do Grão-Duque um soldado da companhia de balestras. – Permite-me falar Senhor?
- Estou a ouvir-te.
- O Sacerdote Shverno pede que compareça a Catedral da cidade, disse ele, que possui algo a lhe mostrar.
- Guie-me até ele.
- Sim Alteza.
Os dois já tomavam seu caminho, em suas costas ouve-se:
- E nós Meu Senhor, o que será de nós? – com olhos estalados observava-o camponês. – Dará a nós sua clemência.
Vaisvilkas  interrompe seus passos, voltando-se a multidão.
- Não, sua chance foi dada, e vocês fizeram uma escolha, que agora devem aceitar, porém, vos dou outra possibilidade, podem seguir para o sul, encontrarão o Castelo da Ordem, Marienburg, lá devem encontrar abrigo com seus irmãos de fé.
- Não Meu Senhor! Por favor. Seremos mortos certamente, dirão que nos rendemos aos pagãos. – As lágrimas vertiam de seus olhos. – É melhor a morte aos horrores que irão nos submeter.
- Há um escrito no seu livro que diz; Mil cairão a minha esquerda, e dez mil a minha direita, e não temerei mal algum. Pois que assim seja, não devem temer a nada. – Virando-se e caminhando. – Que todos deixem essa cidade até o anoitecer de amanhã, sem mais, aqueles que se recusarem, que sejam passados ao fio da espada.
            O Grão-Duque deixa o local, virando em uma esquina, ficando apenas os guardas, e as pessoas atônitas, em choro, ao fundo, o barulho dos mentirosos sendo punidos por seus erros, um a um.

B.d.K. 6 - O julgamento 2.


- Dália, Deusa do Destino e Tecelã da Corda da Vida, me permite hoje decidir sobre vocês.
Muitos choravam, outros apenas olhavam, perplexos demais para reagir, mas ninguém ousaria fazê-lo, dada a presença da guarda pessoal do Duque e outra centena de soldados ali.
- Mas, melhor que isso, serei clemente para com vocês, dar-lhe-eis uma chance. – Seus passos interrompem acima de uma pilha de escombros, dando visão a todos. – Há alguém aqui que adorou secretamente, os deuses dos antigos lituânios? – Vários levantaram-se, com uma esperança no rosto, certos de sua liberdade e absolvição. – Soldados, levem estas pessoas daqui, que a cada um deles seja pedido o nome de 3 deuses exceto a Dália, aqueles que souberem, que lhes seja dada a liberdade a sua família, seus bens devolvidos e sua casa seja a primeira a ser reconstruída. Aqueles que não souberem o nome dos nossos deuses e apenas mentirem para salvarem suas vida, que seja estes empalados e deixados a morrer dolorosamente na entrada da cidade, para que sofram por negar a seu deus, mentir e tentar enganar-me e desrespeitar os nossos deuses.
O desespero estampou-se na face de muitos deles, daqueles cuja vida, valia mais do que suas convicções. - Aqueles que tentarem fugir ou recusarem-se a dizer os nomes, que sejam estes levados ao calabouço e torturados para arrependerem-se de suas palavras, e então, que sejam suspendidos pelos seus ânus, para que sofram mais daqueles que mentirem.
- Há alguém aqui que. – Voltando-se as outras pessoas. – gostaria de aceitar os nossos meios, nossos deuses, e nossa vida? – Sua voz tornando-se incisava. – Vejam bem, serão julgados pelas nossas leis e nossos costumes, pagarão nossos impostos e aceitarão nossos deuses, aqueles que aceitarem viver assim e tentarem voltar para seus antigos meios, não serão poupados, aqueles seguirem nossas regras, poderão viver suas vidas normalmente.
            Uma grande parcela daquelas pessoas, diga-se que perto metade levantou-se. Muitos por genuína frustração para a opressão de seus antigos senhores, a exploração de seu trabalho, e as leis destes que os obrigavam a coisas humilhantes, e para quem o deus destes senhores, jamais foi clemente, além do ponto de pedir submissão a isso.  Outros, por puro oportunismo, para quem um deus ou vários era apenas uma máscara, e sua intenção era permanecer vivo, independente de qual bandeira tremulasse no forte. Já o terceiro grupo era daqueles que temiam o destino dos cristãos que assumissem sua fé independente do destino, aqueles que já haviam sofrido demais e não queiram cair vítima do suplício de outro senhor como vingança de atos que não cometeram.
- Levem estes, e que lhes sejam devolvidos os pertencentes e suas casas, que assumam suas novas vidas, os símbolos de suas antigas crenças sejam destruídos e que comecem assim que possível.
- Para vocês, que verdadeiramente, aceitam sua fé e seu deus, serei clemente, lhes dou uma chance. – Apontando para o Oeste. – Naquela direção, ficam os reinos cristãos e as terras da Ordem, para lá encontrarão o Sacro Império e os poloneses também. Dou-lhes minha palavra de salvo conduto, não serão atacados ou saqueados pelas tropas que eu comando. Não poderão levar nada além da roupa que lhes cai e uma porção de comida e água para cada um, que deverá durar 5 dias, a partir de então, deverão buscar comida por vossa capacidade. Que não seja ela a pilhagem e o saque de outras vilas, pois caso eu tome nota, vocês serão perseguidos e passados a o fio da espada.

B.d.K. 5 - O julgamento.

Mesmo não participando da área militar das campanhas, Shvarno envolveu-se na resistência de uma pequena tribo estoniana formada por pequenas vilas que viam-se ameaçadas por mercenários prussianos. Mesmo interessante tal história não é pertinente ao momento, e basta-nos recordar que essas escaramuças ficaram conhecidas como “A camapanha do Sacerdote Guerreiro”, levaram a aniquilação deste grupo de pilhadores, além de ter angariado o respeito do líder tribal que aceitou-se colocar a disposição do Grão-Duque Vaisvilkas, naquela época, ainda Duque, na formação do grande Império Lituânio.
Foi desta forma que aconteceu o primeiro contato pelos dois, a fama deste jovem sacerdote, a uma vitória militar tão importante transformou-o em uma espécie de conselheiro militar do Grão-Duque, para o descontentamento de outros Nobres e Generais.

- Shverno... Shverno, acorde!!! – Exclamava a voz de Vaisvilkas, olhando-o fixamente. – Estava em algum tipo de visão, alguma inspiração do deuses, alguma resposta?!
- Perdão Meu Senhor. – Voltava Ashverno de seu devaneio. – Visões sim, mas não de um futuro ou de respostas, apenas do passado, de todo nosso caminho.
- Eu lhe disse meu jovem sacerdote, podes não entender, podes não querer admitir, pois estás pessoalmente envolvido nisto, mas estas batalhas já não são mais as mesmas. – O Grão Duque franzia seu cenho. – É como se estes cristãos já não tivessem mais forças para lutar.
- Entendo Meu senhor. Peço-lhe permissão para andar pela cidade e procurar respostas.
- Vá, e traga algo que acalme minha alma.
- Sim, Meu Senhor.
            O sacerdote retirava-se, já dentro da cidade, para investigar enquanto Vaisvilkas saudava suas tropas, mais um discurso, mais gritos de alegria, afinal, uma grande vitória havia sido conseguida hoje, um dos pontos principais de invasão da Lituânia havia sido conquistada, um porto estratégico agora em poder deles.
Ao Sul encontrava-se o Castelo de Marienburg, uma das capitais da Ordem, logo, seria a vez deles sucumbirem sobre as espadas pagãs que haviam jurado exterminar. Mas agora era hora de julgar aqueles que ali estavam, aqueles homens e mulheres que tanto apoiaram a morte de seus conterrâneos.
            Postando-se diante deles, aquela figura exalava autoridade, olhando em silêncio, para as pessoas ali aterrorizadas em verem diante de si, o que durante anos lhes foi pintado como a própria encarnação do Diabo. O próprio anti-cristo, agora era senhor de seus destinos. De fato, essa era a primeira vez que uma província de maioria cristão católica estava em poder dos pagãos lituânios, ali estavam prussianos, livonianos, polacos e outros povos do ocidente da Europa que juntavam-se para buscar a glória de exterminar o paganismo.
- Sua cidade. – Inicia Vaisvilkas, em um alemão claro, para surpresa de todos, silenciando o murmúrio que ouvia-se. – Outrora, impenetrável, bastião das suas forças que invadiam minhas terras, saqueavam minhas cidades e matavam meu povo, hoje, pela força benção de nossos deuses e força de nossas armas, caiu.
Apontando para a cidade em ruínas. – Apenas um dia foi necessário para que sua cidade fosse reduzida a escombros. – Agora caminhava entre as pessoas, todas de joelhos. – Eu poderia ordená-los a morte pela fogueira, como tantas das mulheres do meu país foram mortas.  – Um som nervoso emanava da multidão. – Ou poderia passar a todos ao fio da espada, como vossos assim chamados... cavaleiros hospitalários tem o costume de agir.

B.d.K. 4 - As origens de Shverno de Lida 2.


- Oram vejam só, a vadia é uma bruxa mesmo. – Um tapa em seu rosto faz com que ela caia virada sobre a cama. – É hora de você sentir um pouco da ira de deus, vamos purificar este corpo de todos os pecados sua bruxa.
Seu marido, impossibilitado de fazer algo por sua esposa, se debate desesperadamente, apenas para ser espancado até o ponto de quase desmaiar. Mas não deixariam chegar a tal, pois a perversidade deles não havia terminado, ele é obrigado a assistir enquanto cada um dos 6 homens ali presentes estupra sua mulher, espancando-a quando esta tenta fugir dos seus agressores, sangue lhe corre pela face e corpo, por suas pernas, já fraca para resistir o último homem sai de cima dela, puxando a pelos cabelos.
- Venha sua pagã maldita, hora de entregar seus pecados a Deus.
O pobre garoto, segurando o choro com suas mãozinhas, não vê o que acontece lá fora, além de gritos. Mas o cenário lá não é melhor, as mulheres são arrastadas para o centro, onde madeira molhada de pixe é amontoada, a grande maioria mostra traços da mesma punição que a mãe de Shvarno, os homens, aqueles que ainda estão vivos, são obrigados a assistir suas esposas, mães, filhas e filhos pequenos serem amarrados a troncos enquanto um padre abençoa aquela fogueira purificadora.
            Chamas tomam conta dos corpos agonizantes amarrados, o cheiro de carne queimando toma conta do ar, misturado a fumaça asfixiante da madeira queimando. Os homens tomados de desespero tentam mover-se em direção a seus entes, sendo então abatidos pelos seus captores, mas de forma apressada, pois já sabem que o exército pagão do Senhor daquele território aproxima-se.
- Vamos homens! – Comanda aquele que parece ser o líder do grupo. – Nosso recado aqui já está dado.
            Os cavaleiros cristãos se retiram, e dentro de algumas horas adentra a vila a cavalaria pagã, correndo no máximo da força de seus cavalos, apenas para encontrar aquele cenário infernal. Muitos choram, pois seus conhecidos moram naquela vila, muitos familiares. Descendo de seus cavalos, passam a examinar os mortos, mas alguns agonizam, pois seus ferimentos não foram fatais o suficiente para terminar seus sofrimento. Um deles é o pai de Shvarno, um dos cavaleiros aproxima-se dele, ao avista sua mão erguendo-se em meio aos mortos e moribundos.
- Meu irmão, você está vivo, agüente, vamos tirá-lo daqui.
- Não! – Exclama ele com uma voz fraca. – Meu filho... porão. – Sangue sai pela sua boca, entre palavras cortadas. – Salve-o... Aquela casa. – Aponta com sua fraca mão, deixando este mundo em seguida.
O cavaleiro, entendendo a mensagem, corre chamando-o auxilio de outros, por sorte, a casa destas pessoas foi uma das poucas a não ser queimada durante o ataque, o que para a pequena criança, salvou sua vida, pois certamente morreria asfixiada pela fumaça, ou queimada. Mas não foi o caso, com o esforço daqueles homens, a criança pode ser salva e retirada dali, um dos poucos sobreviventes do massacre, mas a única criança, não deixou de ver a cena das mortes, as pilhas de corpos amontoados para serem levados e receberem os ritos de passagem, a grande pira funerária para os outros moradores agora apagada, exalava uma pequena fumaça e um cheiro nauseante de carne queimada, urina e excremento.
            Levado dali, até uma outra pequena vila, com um pequeno castelo de madeira de onde ele veio a receber seu acrônimo futuro, Shvarno de Lida, lá criado por uma família de sacerdotes, cresceu amaldiçoado pelas visões daquele dia, os sons da morte permaneceram na sua mente, o que pode indicar o por que de sua predileção na adoração a Giltinè, a Senhora da Morte, Ceifadora de Almas.
Implacável e perspicaz, rapidamente suas idéias de resistência a invasão cristã se tornaram uma obsessão pela vingança da morte de seus pais.

B.d.K. Parte 3 - As origens de Shverno de Lida.


Por horas a fio ainda estendeu-se essa batalha, e ao fim dela, já no cair da noite, com a guarnição remanescente baixando suas armas, começava a segunda etapa da invasão, a pilhagem, casas eram arrombadas, pessoas arrancadas de seus esconderijos, espancamentos, pertences de valor eram arrancados, sejam de pescoços, dedos, ou de guarda-roupas.
Uma ordem havia sido dada anteriormente a invasão, os civis não deveriam ser presos, o Grão-Duque Vaisvilkas iria julgá-los da mesma forma que os cristãos haviam julgado seu povo nos últimos 20 anos. Todos sabiam que na prática, isso seria a morte destas pessoas, mas ninguém haveria de desafiar o Grão-Duque.
- Algo está diferente nesta guerra. – Exclamava Vaisvilkas enquanto caminhava em direção a entrada da cidade, observando as colunas de fumaça subindo iluminada pelas fogueiras de prédios em chamas. – Você há de concordar comigo meu caro Shvarno, isso não é algo normal.
- O que o Meu Senhor vê de errado? Os nossos deuses sorriem para nós tocando com a morte nossos inimigos, enquanto o deus deles parece tê-los abandonado. – Soava a voz logo atrás do Grão-Duque. Um homem alto, vestido em um hábito negro, com um capuz a lhe cobrir o rosto e um cajado nas mãos, apesar de crescer-se ser um velho, era uma pessoa relativamente jovem, que havia subido a posição de sacerdote pessoal de Vaisvilkas, posição esperada de um Sumo-Sacerdote e não de um jovem como ele.
Mas este sacerdote havia destacado-se entre as campanhas, com ótimos conselhos e mesmo liderando a resistência de vilas onde prestava serviço como mensageiro de Giltinè, deusa da morte. – Não creio que o Meu Senhor esperasse derrotas como algo comum.
- Não te faça de tolo Shvarno, tu mais do que ninguém sabe o que estes cristãos são capazes e como sua resistência é feroz, suas ações violentas e suas práticas impiedosas.
E realmente ele sabia, quando criança, no começo da Cruzada, sua família vivia em um pequeno vilarejo, onde seu pai era um lenhador e sua mãe, uma sacerdotisa de Perkünas, o Deus do Trovão, tudo era calmo, o local era uma demonstração do apresso dos deuses pelos mortais, um riacho trazia água cristalina até a vila, grandes árvores cresciam majestosas na floresta, o campo era fértil, mas as trevas da guerra chegaram até este local. Uma noite, como outra qualquer, todos já dormiam, da floresta, surgem dezenas de cavaleiros pesadamente uniformizados trazendo consigo os estandartes da Legião Teutônica interrompem o silêncio da noite, a vila pequena e desprotegida não possui força para resistir a uma legião da morte como esta. O zunido das espadas cortando nacos de carne de aldeões indefesos, o desespero das famílias, as chamas causadas pelas tochas cristãs nas casas de palha e madeira acordam todos os que ainda dormim.
Shvarno, com dois ano de vida é acordado bruscamente pela mãe que o pega em seus braços e corre para um outro aposento onde seu pai abre um alçapão embaixo da cama, agora movida.
- Meu filho, escute bem, mamãe vai te esconder aqui enquanto estes homens estiverem aqui, me prometa que você irá ficar em silêncio.
Empurrando o garoto dentro do esconderijo e colocando a cama de volta ao lugar é o tempo que resta até sua casa ser invadida pelos cavaleiros, mesmo escondido, a cena não pode deixar de ser vista pelos buracos na madeira do chão da casa, o pequeno garoto viu quando dois cavaleiros avançam contra seu pai, segurando-o, outros com o controle da sua mãe, arrancam suas vestes deixando-a completamente nua, um amuleto em honra Perkünas balançava em seu pescoço.